A valorização do desvalorizado


Crédito foto: Flicker

Crédito foto: Flicker

Há um tempo atrás eu entrei nas configurações do meu Facebook e decidi que não gostaria mais de ver nenhuma notícia referente as pessoas que estão no meu perfil. O motivo ? Gostaria de ver apenas notícias dos grupos e páginas que eu estou participando, e assim ficou. Todo dia eu vejo apenas as notícias dos grupos que gosto e das páginas dos sites que mais gosto, e foi por causa dessa minha nova configuração que percebi que as pessoas andam se empolgando muito no mercado de carros usados.

Mas vamos começar por um caso mais próximo de mim. Há alguns dias atrás um amigo meu, que me colocou no mundo maluco do kart, me perguntou sobre o nostálgico Corsa Gsi. Ele estava preste a adquirir um, bem conservado, e gostaria de saber informações desse hot hatch. Curiosamente, semanas antes dele conversar comigo, tomei conhecimento de um exemplar, na cor vermelha, do Corsa Gsi à venda. Logo perguntei ao meu amigo de qual Gsi se tratava, se era do vermelho. E ele me respondeu que não, se tratava de um Gsi branco, em muito bom estado, mas que o dono tinha feito alguns reparos corriqueiros em carros dessa idade. Me contou também, que esse Gsi vermelho esta à venda por estratosféricos R$19.000. O dono desse Gsi alega ser um carro de colecionador, e por isso ele custa tão caro. Corsa Gsi, carro de colecionador…

Como citado no primeiro parágrafo, pelo meu perfil do Facebook, passei a tomar conhecimento de diversas matérias ou postagens de vendas de carros usados, algumas delas enfatizando o fato dos carros serem verdadeiras pérolas no mercado, carros realmente difíceis de achar como o Alfa Romeo 156, Ford Mustang, Mitsubishi 3000 GT, Lotus Elan e outros. Mas foi desta mesma forma, que encontrei carros nos quais seus donos alegam que são peças de coleção, verdadeiros clássicos, ou que pelo menos, estão se tornando clássicos. E o primeiro desses carros foi um Chevrolet Kadett Gsi.

O Kadett estava anunciado em um website de vendas, estava muito bem conservado, os bancos estavam intactos, a pintura parecia muito bem cuidada e com powertrain e suspensão em dia (segundo o dono). O preço pedido pelo proprietário, acredite, era R$25.000. O proprietário alegava (também) que o seu Kadett custava tudo aquilo porque tinha um valor simbólico, sem mais.

Buggy Fyber. Imagem ilustrativa. Crédito foto: Mercado Livre

Buggy Fyber. Imagem ilustrativa.
Crédito foto: Mercado Livre

Depois do esportivo da Chevrolet, foi a vez de um Buggy Fyber chamar a minha atenção. Embora ele tivesse a carroceria de um dos novos Fyber, ele não era de fato um exemplar dos últimos Fyber fabricados há alguns anos atrás. Tratava-se na verdade de um Fyber 1989, que teve um extenso trabalho de “restauração”, além disso o Fyber rejuvenescido recebeu mecânica “nova”, motor AP1800 Mi, mas com injeção Fuel Tech Ft alguma coisa. O preço deste buggy, R$23.000.

Finalmente, eu me deparei com uma matéria de um site referente a um carro raríssimo aqui no Brasil, que também foi encontrado à venda, o Volkswagen Gol 1993… Sim, o bom e velho Gol “quadrado”, mas este não é um Gol 1993 comum, trata-se de um muito, mas muito pouco rodado (cerca de 70.000Km). Confesso que até fiquei admirado por ver um carro como o Gol, pau para toda obra, sem ter o devido uso, e ao que parece foi carro de apenas dois donos. O fato é que este Gol está muito preservado, pois até os sinais de corrosão da carroceria são inexistentes. O preço para levar este maravilhoso carro ordinário, R$35.000.

Que tal um Gol quadrado totalmente original ? Só R$35.000, vai ?

Que tal um Gol quadrado totalmente original ? Só R$35.000, vai ?

Obviamente eu também descobri muitos outros carros à venda na internet ou na minha cidade natal (Fortaleza/CE), mas os carros acima foram os que mais chamaram a minha atenção. E por causa deles eu percebi que aqui no Brasil, parece existir uma inversão de valores. Percebi duas atitudes interessantíssimas.

A primeira, é a errônea consciência das pessoas de que carro usado, é carro com problema, danificado, mal cuidado ou simplesmente uma bomba relógio, prestes a explodir na sua mão, caso você o compre. Quase todas as pessoas que conheço possuem a mesma atitude na hora de vender seu carro. Geralmente eu escuto exclamações como:

“Não, eu vou dar só uma regulada na injeção, um polimento na pintura e por para vender. Não vou fazer a suspensão, não, por que saí muito caro.”

Eu queria saber que tipo de pessoa gostaria de comprar um carro usado com a suspensão a ser reparada ? Quem compraria um carro sabendo que tem que fazer uma descarbonização no motor ? Pois o antigo dono não o fez. Quem faria isso, caso soubesse que o carro desejado possui algum serviço por fazer ? Acredite, muitas pessoas fazem esse tipo de negócio. Fazem por que tem a errônea consciência de que carro usado, tem que ser surrado, e as vezes acreditam que é melhor pagar menos por um carro usado, com alguns servicinhos por fazer, do que comprar um carro usado super bem cuidado, mas que o preço praticamente esbarra no valor de mercado do veículo definido pela tabela FIPE.

É esse tipo de atitude que tem fortalecido alguns proprietários de veículos, aqueles que cuidam bem do seu meio de transporte, e que na hora de vender fazem questão de vender algo decente (ou de supervalorizar o seu meio de transporte). Entretanto, o que se tem visto é que estes mesmo proprietários, espertamente colocam o preço de seus carros bem acima do real valor de mercado, como se o fato de seu carro ser bem cuidado ou pouco rodado o fizesse valer isso. Infelizmente, como a maioria das pessoas não se importam em vender algo com problema, aquele que vende um da forma correta se aproveita. E foi dessa forma que eu percebi a segunda atitude desses proprietários gourmet de carros.

Este, sim, está se tornando um clássico. Crédito foto: https://cdn4.3dtuning.com

Este, sim, está se tornando um clássico.
Crédito foto: https://cdn4.3dtuning.com

A segunda atitude é a frequente utilização do termo colecionador, clássico ou pouco rodado, na hora justificar o valor cara de pau cobrado por algumas relíquias disponíveis no mercado de usados. Sim. Relíquias como Corsa Gsi, Kadett Gsi, Gol Gti e muitos outros esportivos nacionais dos anos 90, que hoje são dados como clássicos ou que estão se tornando clássicos.

O fato é que ninguém quer comprar uma bomba, mas vender já é outra história. Participamos de um mercado em que não há o ganha-ganha, e sim ganha-perde. Alguém tem que sair perdendo, sempre. Não há nada, absolutamente nada, de errado em deixar um carro totalmente Ok, e cobrar um valor justo por ele no momento da revenda. Pois isso é o correto, ninguém gostaria de comprar um carro sabendo que há pendências com ele. As maracutaias começam quando eu observo carros, sem apelo histórico nenhum, sendo caracterizados como carros de colecionador ou clássicos, carros que, se duvidar, passaram despercebidos em sua época. É duro ver carros como Fiat Uno Turbo, Gol Gti, Corsa Gsi, Escort Xr3 e outros semelhantes sendo taxados como clássicos ou peças de colecionador, onde em alguns casos eles não passaram de versões anêmicas de esportivos europeus.

Um clássico, fato. Crédito foto: http://www.autouniondkw.com.br/

Um clássico, fato.
Crédito foto: http://www.autouniondkw.com.br/

Eu acho que sou doido, mas na minha biblioteca de carros clássicos estão o DKW Vemag (aquela simpática perua com motor 2 tempos), o Puma GT, o GT-Malzoni, os primeiros VW Sedan, o Shelby Cobra 427, a Ferrari 250 GT, a Ferrari GTO, o Shelby GT500, o Mazda RX7 GTX (FC-3S), o Porsche 911 Carrera RS, o Porsche 356 e o Plymouth Barracuda, são exemplos de clássicos. Entretanto, é claro que alguns carros mais modernos também estão se tornando clássicos, como por exemplo o Nissan Skyline GTR R32 (lançado em 1989), o Mazda RX7 (FD-3S), o Ford Escort RS Cosworth, o Porsche 911 993, a Ferrari 355 F1 (aquela em que as trocas de marchas eram feitas com os dedos, cambio automatizado), a Ferrari F40, o Mclaren F1, o Aston Marti DB7, o Aston Martin V12 Vantage, o Golf Gti, o primeiro Dodge Viper e outros carros que ficaram na história.

E então me vem um monte de entusiastas vendendo, carros ordinários a preços exorbitantes, com a alcunha de clássico ou de colecionador. Vão passear. Isso é a coisa mais ridícula que eu já vi, é a mesma coisa que comprar o bom e velho Super Nintendo de alguém, e este te cobrar 3.000 dilmas, com a desculpa de que ele se tornou vintage.


Auto entusiasta, piloto virtual, técnico em Manutenção e Mecânica Automotiva, estudante de Engenharia Mecânica. Automobilista nato!

  • Cara apesar de revoltante é realmente isso que ocorre no Brasil, nossa esperteza e o jeitinho brasileiro é que degradam nossa sociedade.

  • Marcos Guimaraes Santos

    Amigo, concordo em quase tudo, menos o fato de que você de certa forma quer desvalorizar um carro como o Corsa GSI, mas se você pesquisar até na Europa os caras o valorizam. Prefiro muito mais meu corsa GSI, que é uma verdadeira raridade, com ar condicionado, potente, economico, confortavel, com retrovisores eletricos, sensores espalhados pelo carro, freios ABS, etc, teto solar e kit aerodinamico. É um carro completo, gostoso de dirigir e que não dá tanto trabalho se a pessoa fizer manutençoes preventivas. Quem tem o valoriza porque sabe o que tem.

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