Trocando um Frísio por um Burro de Carga


Crédito foto: caminhaoantigobrasil.com.br Banner publicitário da F1000 4x4 95.

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Banner publicitário da F1000 4×4 95.

No final dos anos 80 e início dos anos 90 o mercado de picapes no Brasil se resumia a modelos como F1000 e D20, e seus derivados utilitários como Veraneio, Bonanza e F1000 XK Deserter. Todos eles tinham as mesmas fraquezas em comum, ausência de um sistema de tração nas quatro rodas, sistema de injeção puramente mecânicos, vibração excessiva (e fumaça também…), além de desenvolver pouca potência. Mesmo o valente Bandeirante (nome feio se comparado ao seu nome original, Land Cruiser), que tinha um robusto sistema de tração nas quatro rodas, era um carro excessivamente rustico e voltado para o trabalho.

Entretanto, foi com a abertura da importação em meados dos anos 90 que a situação começou a mudar. Desembarcaram em terra brasilis Mazda, Mitstubishi, Toyota, Nissan, Honda, Lada, Dodge e muitas outras marcas para disputar com as três grandes Ford, Chevrolet e Fiat. Algumas dessas marcas apresentaram ao consumidor brasileiro suas picapes, e nesse cenário nomes como L200, Frontier e Hilux se destacaram e passaram a fazer frente as cansadas picapes de outrora. Ford e Chevy reagiram com as novas F1000, Ranger, Silverado e S10. Mas não adiantou, a versatilidade e a superioridade técnica das picapes asiáticas prevaleceu, e pouco a pouco nomes como F1000 e Silverado sucumbiam devido as poucas vendas. Eram grandes, caras e mesmo com grande capacidade de carga em relação as picapes asiáticas, satisfaziam apenas a consumidores específicos. Ranger e S10 tiveram que evoluir para não perder mercado e estão neste até hoje, deram a volta por cima, aliás. Ou seja, a versatilidade, durabilidade e o custo benefício das picapes asiáticas acabou atendendo a uma maior quantidade de perfis de consumidores. Então o mercado de picapes começou a tomar um novo rumo, deixando de atender apenas clientes com finalidade de serviços, para também satisfazer clientes que optavam por ter uma picape como veículo de passeio. A picape passou a ser mais desejada como o carro da família, o carro da casa da família brasileira, e isso se tornou um problema.

Primeira geração de L200 vendida no Brasil. Crédito foto: automundo.com.br

Primeira geração de L200 vendida no Brasil.
Crédito foto: automundo.com.br

Com a facilidade de obter informações, as pessoas perceberam que as picapes equipadas com motores diesel, embora mais caras, possuíam alto valor de revenda. Este é justificado pelo maior preço de manufatura do motor, por ser do ciclo diesel, sua peças devem ser mais robustas e isso implica em maior preço, implica também em maior durabilidade do motor, e por isso tornaram-se mais procuradas no mercado. Somando ao fato de que nos anos 90 o preço do diesel era consideravelmente menor, as picapes pareciam um negócio interessante.

Aos poucos os proprietários de Civic, Corolla, Vectra, Tempra e outro modelos de médio porte, foram migrando para picapes médias. Obviamente as vantagens eram tentadoras, diesel barato, mecânica robusta, grande espaço para bagagem(no caso carga…), alto valor de revenda e aquela sensação agradável de estar fazendo um bom negócio. Só que não.

Hilux 2005. Revolucionou o mercado das picapes. Crédito foto: automovelerequinte.com.br

Hilux 2005. Revolucionou o mercado das picapes.
Crédito foto: automovelerequinte.com.br

Naturalmente as picapes evoluíram, e com a chegada da nova Hilux em 2005, as picapes médias definitivamente viraram símbolos de status. Modernas, elas não possuíam mais interiores espartanos e de linhas retilíneas, melhoraram a ergonomia e o conforto (embora para quem viaja no banco de trás…), ganharam mordomias com kit multimídia, ar condicionado digital, piloto automático(cruise control), air bag, auxílio de subida e descida e computadores de bordo que só faltam falar… Alguns até falam. Além disso, os freios e suspensão possuem importantes controles eletrônicos como ABS, EBD e ESP para tornar as picapes veículos mais seguros (menos inseguros) dinamicamente.

Por outro lado, as picapes ficaram mais caras, para comprar e para manter. Por exemplo, enquanto você pagaria de R$200,00 a R$400,00 na revisão de 10.000 Km de um sedã médio, nas picapes essa mesma revisão não sairia por menos de R$500,00, isso falando de picapes com motores a gasolina, pois com motores diesel uma revisão de 10.000 Km facilmente passaria dos R$700,00. E não para por aí, as peças possuem pelo menos o dobro do preço se comparadas as peças de um sedã médio, chega-se a pagar mais de R$1000,00 por um farol ou jogo de amortecedores dianteiros.

Teste do alce da Toyota Hilux.

Teste do alce da Toyota Hilux.

Pior do que isso, é o fato desses carros transmitirem uma falsa sensação de segurança, onde na verdade possuem facilidade para capotar. A então queridinha Hilux, foi reprovada no teste do alce anos atrás, a picape japonesa chegou a ficar sobre duas rodas apenas, mas devido a habilidade do piloto o carro não capotou. A fábrica e os picapeiros clamam em sua defesa colocando a culpa nas rodas aro 16 opcionais, que equipavam o veículo do teste. De fato foi a causa sim, mas basta olhar para fora de sua casa no seu condomínio fechado, para ver a picape do vizinho com vistosas rodas aro 19. Tudo isso por conta do seu grande peso, que além de prejudicar sua estabilidade, também impõe ao sistema de freios uma grande tarefa, conter a inércia de mais de duas toneladas em uma freada, e dependendo da velocidade, a única certeza é de que você não vai parar… A tempo. Temos então um tipo de carro que não vira e nem freia bem, mas acelera com vigor e muita disposição, pois os motores diesel atuais produzem até 3x mais potência do que os similares antigos e de mesma cilindrada, e isso as permitiu atingirem grandes velocidades. Nas mãos de alguns motoristas, não preciso dizer que isso não é tão legal.

Olha o vizinho manobrando a picape. Bom hein? Crédito foto: mais.uol.com.br

Olha o vizinho manobrando a picape. Bom hein?
Crédito foto: mais.uol.com.br

Como se não bastasse, mais incômodos as com picapes foram surgindo. Percebeu como as picapes médias aumentaram de tamanho? Pois é, hoje elas estão por toda parte ocupando um espaço enorme no transito, no estacionamento e na garagem. Ou você vai negar que você nunca ficou puto com aquele vizinho, que sempre reclama que seu carro está 5 cm mais para frente na sua vaga, e isso atrapalha a manobra da enorme picape dele? Ou até mesmo aquele motorista guiando uma picape, querendo furar fila no congestionamento se aproveitando de seu maior porte, e quando você percebe há apenas ele dentro do carro. Desperdício de espaço.

Mas mesmo com todos essas desvantagens e pontos fracos há quem diga que ainda vale a pena investir tão caro em uma picape, as desculpas são muitas.

“São carros mais seguros, as ruas estão muito perigosas e andar em carros pequenos te deixa mais vulnerável”

ou algo como:

“Picapes são mais duráveis, e eu eu rodo bastante”

e tem a mais ignorante das desculpas para comprar uma picape:

“São carros muito resistentes, demoram muito para apresentarem problemas e não preciso realizar fazendo revisões sempre”.

Meus caros, se qualquer agressor que invade uma via e tenta parar um carro, não importa o modelo, se este não for blindado, um tiro certamente passará, e se – por sorte – pegar no radiador você também não irá muito longe. Mesmo que você trabalhe dirigindo, e rode bastante por dia, uma picape com motor a diesel só valera a pena mesmo se você ultrapassar os 10000 Km/mês, e então vocês estará realmente se aproveitando da maior durabilidade do motor. E se você, acredita que por serem muito mais resistentes do que carros menores, eles não precisam de tanta rigorosidade na manutenção. Sabe de nada inocente, ou melhor, vai saber quando ela finalmente quebrar e o orçamento da oficina vier bem grande. Nessas horas a marca é uma merda, o mecânico rouba, a oficina é incompetente e o cliente está sempre certo. Mais sensato e verdadeiro é aquele cara que compra uma L200 Triton HPE com tudo do bom e do melhor, ostenta, e diz: “Compro picape por que gosto e posso sustenta-la”. Esse até tem meu respeito, mas acho que ele andaria melhor e pagando menos em um Golf GTI.

Verdadeira utilidade de uma picape. Crédito foto: carrobonito.com

Verdadeira utilidade de uma picape.
Crédito foto: carrobonito.com

Concluindo, as picapes são burros de carga, foram feitas para serem judiadas, mal tratadas com quilos e mais quilos feno, capim, cimento ou carregadas com ferramentas, andaimes, plantas, geradores, animais e qualquer outra carga que seja necessário o transporte, não importando os obstáculos do trajeto que ela terá que superar. E não para ir pegar seus pimpolhos no colégio, levar a família para jantar no Outback ou assistir os Minions, de forma alguma. Para essa função existem ótimos sedãs custando a metade do preço, que são muito mais baratos de manter, e tão agradáveis dirigir quanto cavalgar em Frísio. Ou seja, você trocou um Frísio por um burro de carga enfeitado, pagando mais por ele e para manter ele, e ainda acha que fez bom negócio.


Acadêmico de Engenharia Mecânica pela Universidade Federal do Ceará (UFC), Técnico em mecânica automotiva pelo Senai-CE e IFCE, certificado Six Sigma Green Belt. Profissional dedicado a área automobilística, com 8 anos de experiência no mercado automotivo, do setor de peças a qualidade em montadoras. Atualmente participa do projeto de extensão Siara Baja da Universidade Federal do Ceará.

  • Otima matéria Dias!Realmente,eu não sei que droga o brasileiro vê em picape,WTF!?Nos outros paises são apenas sinonimos de carros de fazenda e transporte,e aqui é ostentação!Não sei o que os BR tem na cabeça viu ,te contar.Quer segurança?Potencia?Compre um Evo IX ou X.Com o preço de uma picape top de linha aqui no brasil pode-se investir em um desses tranquilamente.

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