Continue dirigindo mal, contanto que seja em um carro moderno


Crédito foto: http://i.dailymail.co.uk/

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Se existe algo no mercado automotivo que eu apoio 100% é a “eletronificação” do automóvel. Aliás, eletronificação, essa palavra existe? Enfim, depois que o automóvel começou a receber a injeção eletrônica, mais sistemas eletrônicos foram desenvolvidos: Freios ABS, controles de estabilidade e tração, air bag, câmbios automático e automatizado. Todos eles incorporam diversos componentes controlados por diversas centrais de comando. Esses sistemas eletrônicos auxiliam o motorista a conduzir o veículo em situações como freadas de emergência, derrapagem das rodas de tração em momentos críticos, manter o carro sobre controle em manobras arriscadas e proteger o motorista em caso de impactos.

Muitas pessoas, para falar a verdade muitos autoentusiastas, não aceitam o excesso de controles eletrônicos no automóvel, alegando que a eletrônica tira do condutor o prazer de dirigir, deixam o veículo muito artificial pois a eletrônica está sempre interferindo no controle do motorista. Entretanto há de convir que a maioria dos motoristas são pessoas que veem o automóvel de uma forma diferente dos autoentusiastas, o automóvel para estas pessoas é símbolo de status, um meio de transporte e um produto. Elas não estão nem um pouco preocupadas com técnicas de direção ou, simplesmente, dirigir bem. Podemos concluir então que as fábricas fazem carros perfeitos, para motoristas imperfeitos. Por que?

Há dois anos atrás eu tirei uma certificação na Ford chamada Tier II, e esta era basicamente um curso de direção defensiva. Tive o prazer de guiar o bem acertado New Fiesta no Tatuí Proving Ground. Fiz diversas provas como slalom, desvio, desvio com freada, freada com obstáculo e controle da aceleração.

Depois desse dia, eu nunca mais fui o mesmo motorista, pois como eu já era muito chato e crítico, passei a ser mais chato e crítico, só que agora ao volante. Sempre que entro no carro de um irmão, pai, amigo ou colega, não tem jeito, eu já enxergo os vícios e as falhas. Portanto cheguei a conclusão de que maioria dos motoristas dirigem mal. Não sabem pegar no volante, aceleram demais, erram troca de marcha, arrancam desnecessariamente nos sinais, freiam bruscamente e acionam a embreagem como se estivessem com medo dela. Eu raramente vejo alguém que dirige bem…

E como se dirige bem ? Não há segredos para uma “boa prática de direção”, apenas dirija com suavidade. Dirigir suavidade é não trocar de marcha, acelerar, frear ou esterçar vagarosamente, é tirar a tensão do pé e das mãos e acionar os comandos com progressividade. Trocar de marchar casando o desacionamento do pedal de embreagem enquanto retorna a aceleração, pressionar o pedal de freio apenas uma vez até a parada do veículo, mas modulando a pressão sobre o pedal e esterçar o volante sem movimentos bruscos. Mas qual a importância disso ? Eu já falei aqui no carros infoco sobre transferência de peso, todo automóvel possui sua massa distribuída sobre os quatro pneus, e isso chamamos de carga.

Sempre que aceleramos, freamos ou esterçamos o carro, estamos alterando a carga sobre os pneus, quando essa alteração é muito brusca, ou seja, repentinamente colocamos sobre os pneus uma carga máxima ou excessiva, ele derrapam causando perda repentina de controle do carro.

Embora muitos não percebam, a boa condução do seu veículo também é favorável à manutenção, pastilhas de freio, kit de embreagem, pneus e trabulador agradecem, e seu bolso também. Pois sempre que aplicamos uma carga excessiva sobre os freios, podemos superaquecer as pastilhas, o que leva a um fenômeno chamado fading, que é a perca momentânea de eficiência. Pastilhas que foram expostas a esse nível de esforço apresentam-se vidradas em sua superfície de contato. A embreagem, quando muito judiada pelo seu pé esquerdo, rapidamente tem seu platô desgastado e em pouco tempo apresenta problemas. Também não preciso dizer que se você vira bruscamente o volante em toda curva ou conversão, seus pneus se desgastarão mais rápido que o normal.

E o que isso tudo tem haver com os diversos controles eletrônicos que eu citei no começo desse texto ? Tudo. Simplesmente, tudo. A partir do momento que um computador assume uma função que antes era de um motorista, o computador(ecu) reduz a possibilidade de erro humano. Carros com cambio automático não estancam, carros com cambio automatizado não dão coices no platô para desacoplar o disco de embreagem do volante, carros com freios ABS em hipótese alguma(a não ser abaixo 10Km/h) permitem o travamento das roda, carros com injeção eletrônica evitam que o motorista troque de marcha acima do limite de giro (Rpm do motor). Portanto, os carros modernos evitam que a brutalidade de muitos motoristas prejudiquem seu bom funcionamento, por outro lado a interferência eletrônica é maior, e para uma pequena parte dos consumidores (autoentusiastas) isso é ruim. Mas tenho que dizer a estes, uma injeção eletrônica sempre será melhor que um carburador, um freio ABS sempre será melhor que um freio convencional e um cambio automatizado ou automático sempre será melhor que um totalmente mecânico.

O fato é, que bons motoristas sempre dirigirão bem, independente do nível de auxílios eletrônicos que o carro venha a ter, e por conta disso eles tem uma liberdade maior para escolher qual carro comprar. Ele não precisa de um ABS para frear com cautela e eficiência, também não necessita de uma cambio automatizado para trocar de marcha sem esfolar o kit de embreagem e nem tão pouco de controles de estabilidade e tração, pois bons motoristas sabem modular os pedais e reconhecer os limites do carro. Enquanto que motoristas ruins, que se importam apenas em dirigir (e que são muitos…), eu sugiro que comprem sempre o carro do ano, o mais moderno, com máximo de controles eletrônicos possíveis. Em outras palavras, continuem dirigindo mal, contanto que seja em um carro moderno.


Acadêmico de Engenharia Mecânica pela Universidade Federal do Ceará (UFC), Técnico em mecânica automotiva pelo Senai-CE e IFCE, certificado Six Sigma Green Belt. Profissional dedicado a área automobilística, com 8 anos de experiência no mercado automotivo, do setor de peças a qualidade em montadoras. Atualmente participa do projeto de extensão Siara Baja da Universidade Federal do Ceará.

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